Morihei Ueshiba

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A História do Aikidô: Dos Samurais a Morihei Ueshiba

O Aikidô nasceu no Japão do século XX, criado por Morihei Ueshiba (1883–1969) a partir do Daitō-ryū Aiki-jūjutsu, e recebeu esse nome em 1942 — mas suas técnicas descendem das escolas de jūjutsu desenvolvidas pela classe guerreira japonesa ao longo de séculos. A arte que se pratica hoje é o resultado de uma transformação longa, em que um sistema de combate foi sendo reformulado até virar um caminho de formação sem competição.

Neste artigo percorremos essa linha do tempo: as raízes no jūjutsu feudal, o encontro com Sōkaku Takeda, a formação de Ueshiba, a adoção do nome “Aikidô”, a difusão internacional no pós-guerra e a chegada da arte ao Brasil.

As raízes: o jūjutsu do Japão feudal

Antes de existir Aikidô, existiam as koryū, as escolas marciais antigas. Entre elas, as de jūjutsu (柔術) desenvolviam o combate desarmado ou com armas curtas, voltado a situações em que o guerreiro perdia a arma principal ou lutava em espaço reduzido — inclusive dentro de uma armadura, o que explica a ênfase em projeções e controle articular em vez de socos e chutes.

Dessas escolas vem boa parte do repertório técnico que o Aikidô herdaria: torções de punho, imobilizações e desequilíbrios que usam a estrutura do corpo do oponente contra ele.

Daitō-ryū e Sōkaku Takeda

O elo direto entre esse mundo e o Aikidô é o Daitō-ryū Aiki-jūjutsu, sistematizado e difundido por Sōkaku Takeda (1859–1943), um dos últimos mestres itinerantes do Japão. Takeda viajava pelo país ensinando em seminários curtos e intensivos, e foi assim que, em 1915, em Hokkaidō, encontrou um jovem chamado Morihei Ueshiba.

Ueshiba estudou com Takeda ao longo de vários anos. Muito do que se reconhece como técnica de Aikidô — ikkyo, shihonage, kotegaeshi — tem correspondência direta no currículo do Daitō-ryū.

Morihei Ueshiba: a formação de um fundador

Ueshiba nasceu em 14 de dezembro de 1883, em Tanabe, província de Wakayama. Antes de Takeda, já havia estudado esgrima e lança, e servido no exército durante a guerra russo-japonesa.

O segundo elemento decisivo de sua formação não foi marcial. Em 1919 ele conheceu Onisaburō Deguchi, líder da seita xintoísta Ōmoto-kyō, e mudou-se para Ayabe no ano seguinte. A convivência com Deguchi deu a Ueshiba o vocabulário espiritual com que passaria a interpretar a própria arte — e é dessa combinação, técnica marcial de altíssimo nível somada a uma leitura religiosa do conflito, que nasce o Aikidô.

Em 1931 ele abriu em Tóquio o Kōbukan, dojo que ficou conhecido entre os praticantes como “dojo do inferno” pela dureza do treino. É importante registrar: a arte que Ueshiba ensinava nos anos 1930 era marcialmente muito mais rude do que a que ele ensinaria três décadas depois.

O nome “Aikidô”

Até o começo dos anos 1940, o que Ueshiba ensinava era chamado por vários nomes — aiki-jūjutsu, aiki-bujutsu, aiki-budô. O nome Aikidô se firmou em 1942, no processo de padronização conduzido pela Dai Nippon Butoku Kai, a entidade que organizava as artes marciais japonesas.

No mesmo período, Ueshiba deixou Tóquio e se estabeleceu em Iwama, na província de Ibaraki, onde construiu o Santuário Aiki e passou os anos seguintes dedicado ao cultivo da terra e ao refinamento da arte. É a fase em que o Aikidô assume o caráter que o distingue: a técnica vai perdendo o componente destrutivo e ganhando o princípio de resolver o conflito sem destruir quem o iniciou.

O pós-guerra e a difusão internacional

Com a derrota japonesa, a ocupação aliada restringiu a prática de artes marciais no país. O Aikidô retomou as atividades de forma organizada no fim dos anos 1940, com o reconhecimento da Fundação Aikikai, e a tarefa de reconstruir e difundir a arte coube em grande medida a Kisshōmaru Ueshiba (1921–1999), filho do fundador e segundo Dōshu.

Foi Kisshōmaru quem sistematizou o ensino, padronizou nomenclatura e graduações e organizou o envio de professores para o exterior a partir do Aikikai Hombu Dojo, em Tóquio. Morihei Ueshiba faleceu em 26 de abril de 1969, quando a arte já se praticava em dezenas de países. A liderança permanece na família Ueshiba, com o título de Dōshu.

Linha do tempo resumida

  • 1859–1943 — Sōkaku Takeda difunde o Daitō-ryū Aiki-jūjutsu.
  • 1883 — Nasce Morihei Ueshiba, em Tanabe.
  • 1915 — Ueshiba conhece Takeda em Hokkaidō.
  • 1919–1920 — Encontro com Onisaburō Deguchi e mudança para Ayabe.
  • 1931 — Abertura do Kōbukan, em Tóquio.
  • 1942 — O nome “Aikidô” se firma; Ueshiba se estabelece em Iwama.
  • Fim dos anos 1940 — Reconhecimento da Fundação Aikikai e retomada da prática.
  • Anos 1960 — Difusão internacional; chegada ao Brasil com Reishin Kawai.
  • 1969 — Falecimento de Morihei Ueshiba.

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Perguntas frequentes sobre a história do Aikidô

Quem criou o Aikidô e quando?

Morihei Ueshiba (1883–1969) criou o Aikidô na primeira metade do século XX, a partir do Daitō-ryū Aiki-jūjutsu que estudou com Sōkaku Takeda desde 1915. O nome “Aikidô” se firmou em 1942, no processo de padronização das artes marciais japonesas.

O Aikidô vem dos samurais?

Indiretamente. Suas técnicas descendem das escolas de jūjutsu desenvolvidas pela classe guerreira japonesa, com ênfase em projeções e controle articular. Mas o Aikidô como arte organizada é do século XX, criado quando os samurais já não existiam como classe havia décadas.

Qual a relação entre Aikidô e Daitō-ryū?

O Daitō-ryū Aiki-jūjutsu é a matriz técnica direta do Aikidô. Várias técnicas centrais — ikkyo, shihonage, kotegaeshi — têm correspondência no currículo do Daitō-ryū. O que Ueshiba acrescentou foi uma reformulação do propósito e da relação com o conflito.

Quem levou o Aikidô para o Brasil?

A introdução é atribuída ao Shihan Reishin Kawai (1931–2010), que abriu sua primeira academia em São Paulo em 1963 e se tornou representante geral da Fundação Aikikai no Brasil em 1975. Há registros de uma introdução independente no Rio de Janeiro por volta de 1961.

O Aikidô mudou ao longo da vida de Ueshiba?

Bastante. A arte que ele ensinava nos anos 1930, no dojo Kōbukan, era marcialmente muito mais dura do que a das últimas décadas de sua vida. A ênfase em resolver o conflito sem destruir quem o iniciou pertence sobretudo à fase madura, a partir de Iwama.

Por que o Aikidô não tem competição?

Porque a formulação madura de Ueshiba define o objetivo como vitória sobre si mesmo — masakatsu agatsu. Um campeonato mediria desempenho contra outra pessoa, que é justamente o critério que a arte recusa. Existem estilos competitivos, como o Tomiki, mas são minoritários.

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